AI, MÁRIO VIEGAS! AI! (PRIMEIRA PARTE)
O MUNDO SÃO AS PESSOAS
Por Afonso Becerra de Becerreá (dramaturgia
e encenação)
O mundo são as pessoas. O mundo somos nós.
E é disso que costuma a falar o teatro em que nos refletimos. De entre essas
pessoas, se calhar, há algumas excecionais, ou, se calhar, cada pessoa é uma
exceção, só é necessário conhecê-las. Mas isso também não é assim tão fácil.
Nunca o foi e agora acho que o é ainda menos, devido ao isolacionismo que
promovem os ecrãs e as horas de vida dedicadas ou imersas no mundo digital e no
fazer compulsivo (produzir/consumir).
Por falar em pessoas, quando conheci a
Célia Guido Mendes (diretora deste nosso Centro Cultural Português em Vigo),
acho que logo no primeiro dia surgiu o nome de Mário Viegas (1948-1996). E eu
não sabia quem era aquele fenómeno que, em dada altura, se tinha cruzado na
vida da Célia. O que ela me disse dele, e a maneira em que mo disse, fez com
que a minha curiosidade andasse à procura do Mário. Foi então que perguntei ao
Miguel Martins, nas minhas idas e vindas ao Festival de Teatro de Almada, e
outra vez vi aparecer, no rosto e nos olhos do Miguel, uma expressão parecida
com a da Célia ao falar de Mário Viegas. O Miguel começou a sua carreira
artística quando era um adolescente, participando em Peço a palavra, aquele
programa da televisão portuguesa que já é um mito, tal como o próprio Mário
Viegas. Também perguntei a Teresa Cayolla Porto, viúva de Carlos Porto, o
dramaturgo e crítico teatral que dá nome aos Prémios Carlos Porto da Câmara
Municipal de Almada, e novamente observei como mudava a expressão do seu rosto,
como se estivesse iluminado por uma estrela deslumbrante. Todas as pessoas que
conheceram, de uma ou de outra maneira, Mário Viegas, disseram-me coisas
incríveis, espantosas, maravilhosas. Miguel Martins explicou-me que, quando no
Festival de Almada faltava alguma companhia por qualquer causa de última hora,
o recurso que garantia sempre sucesso era chamar o Mário para que representasse
Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria, um espetáculo que podia durar
uma hora, duas ou três, dependendo da noite e do público.
A 1 de abril de 1996, Dia das Mentiras,
morreu Mário Viegas, aquele artista teatral inclassificável, brilhante,
provocador, que dá nome a uma das salas do Teatro São Luiz, em Lisboa.
Cumprem-se em 2026 trinta anos do seu desaparecimento físico, mas a lenda
continua e nós, o Eu.Experimento, queremos celebrá-la. A figura de Mário Viegas
e tudo o que a rodeia é muito atraente. Ouvimos o que nos contaram algumas
pessoas que o conheceram, vimos imagens e vídeos dele e de alguns excertos das
suas performances e espetáculos e pegámos em Contos do Gin-Tonic, de Leiria. Em
tudo isso descobrimos as arestas do mundo através de um humor por vezes
surrealista, entre o sonho e o pesadelo. Descobrimos que o mundo são as
pessoas, nós.
No laboratório do Eu.Experimento, desde
meados de setembro até 18 de dezembro de 2025, escolhemos e brincámos com os
Contos do Gin-Tonic e percebemos que cada um deles era um riso e um ai, uma
graça e uma desgraça, um sorriso e um lamento. Se calhar foi por isso que vamos
fechar esta primeira parte da nossa homenagem a Mário Viegas com Cantiga dos
Ais, de Armindo Mendes de Carvalho, ao estilo da nossa estrela Mário Viegas.
Mas, antes da Cantiga dos Ais, vão os Ais teatrAIS seguintes:
•
“Pôr-do-Sol”, com Ana Sousa, a refletir sobre os
limites entre imaginação, pesadelo e trabalho, através de uma escritora que
quer ser feliz com o que faz, mas... Ai!
•
“Carreirismo” ironiza sobre os percursos de vida
do ladrão que acaba por ser chefe da polícia. Ernesto Luís escreve duas breves
cenas, interpretadas por ele e por Carmen Lois, com a colaboração de Ana Sousa e
de Nuria Otero, oferecendo-nos uma perspetiva mais otimista do que a do texto
de Leiria, mas... Ai!
•
“Noivado”, com Nuria Otero e Ernesto Luís,
coloca-nos face ao amor que, mais do que cego, é míope e remete-nos novamente
para a questão da felicidade que nos pode trazer, mas... Ai!
•
“Medicina Tropical”, com Carmen Lois e Ana Sousa,
é metáfora grotesca de quê? De que a solução perfeita para as nossas doenças
talvez não esteja no consultório médico, mas então onde estará? Será a medicina
o que nos traz esta cena? Mas... Ai!


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