AI, MÁRIO VIEGAS! AI! (PRIMEIRA PARTE)

 


O Camões – Centro Cultural Português em Vigo apresenta, no dia 18 de dezembro, às 20h00, o espetáculo Ai, Mário Viegas! Ai! (Primeira parte), desenvolvido pelo nosso grupo de teatro amador Eu.Experimento, com encenação de Afonso Becerra de Becerreá.

A entrada é livre, mas está sujeita a reserva prévia através dos seguintes contactos: Tel: (+34) 986 430370 / ccp-vigo@camoes.mne.pt
Os bilhetes permanecerão reservados até meia hora antes do início do espetáculo.

FOLHA DE SALA 
Ai, Mário Viegas! Ai! (Primeira parte)

O MUNDO SÃO AS PESSOAS 

Por Afonso Becerra de Becerreá (dramaturgia e encenação) 

O mundo são as pessoas. O mundo somos nós. E é disso que costuma a falar o teatro em que nos refletimos. De entre essas pessoas, se calhar, há algumas excecionais, ou, se calhar, cada pessoa é uma exceção, só é necessário conhecê-las. Mas isso também não é assim tão fácil. Nunca o foi e agora acho que o é ainda menos, devido ao isolacionismo que promovem os ecrãs e as horas de vida dedicadas ou imersas no mundo digital e no fazer compulsivo (produzir/consumir). 

Por falar em pessoas, quando conheci a Célia Guido Mendes (diretora deste nosso Centro Cultural Português em Vigo), acho que logo no primeiro dia surgiu o nome de Mário Viegas (1948-1996). E eu não sabia quem era aquele fenómeno que, em dada altura, se tinha cruzado na vida da Célia. O que ela me disse dele, e a maneira em que mo disse, fez com que a minha curiosidade andasse à procura do Mário. Foi então que perguntei ao Miguel Martins, nas minhas idas e vindas ao Festival de Teatro de Almada, e outra vez vi aparecer, no rosto e nos olhos do Miguel, uma expressão parecida com a da Célia ao falar de Mário Viegas. O Miguel começou a sua carreira artística quando era um adolescente, participando em Peço a palavra, aquele programa da televisão portuguesa que já é um mito, tal como o próprio Mário Viegas. Também perguntei a Teresa Cayolla Porto, viúva de Carlos Porto, o dramaturgo e crítico teatral que dá nome aos Prémios Carlos Porto da Câmara Municipal de Almada, e novamente observei como mudava a expressão do seu rosto, como se estivesse iluminado por uma estrela deslumbrante. Todas as pessoas que conheceram, de uma ou de outra maneira, Mário Viegas, disseram-me coisas incríveis, espantosas, maravilhosas. Miguel Martins explicou-me que, quando no Festival de Almada faltava alguma companhia por qualquer causa de última hora, o recurso que garantia sempre sucesso era chamar o Mário para que representasse Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria, um espetáculo que podia durar uma hora, duas ou três, dependendo da noite e do público. 

A 1 de abril de 1996, Dia das Mentiras, morreu Mário Viegas, aquele artista teatral inclassificável, brilhante, provocador, que dá nome a uma das salas do Teatro São Luiz, em Lisboa. Cumprem-se em 2026 trinta anos do seu desaparecimento físico, mas a lenda continua e nós, o Eu.Experimento, queremos celebrá-la. A figura de Mário Viegas e tudo o que a rodeia é muito atraente. Ouvimos o que nos contaram algumas pessoas que o conheceram, vimos imagens e vídeos dele e de alguns excertos das suas performances e espetáculos e pegámos em Contos do Gin-Tonic, de Leiria. Em tudo isso descobrimos as arestas do mundo através de um humor por vezes surrealista, entre o sonho e o pesadelo. Descobrimos que o mundo são as pessoas, nós. 

No laboratório do Eu.Experimento, desde meados de setembro até 18 de dezembro de 2025, escolhemos e brincámos com os Contos do Gin-Tonic e percebemos que cada um deles era um riso e um ai, uma graça e uma desgraça, um sorriso e um lamento. Se calhar foi por isso que vamos fechar esta primeira parte da nossa homenagem a Mário Viegas com Cantiga dos Ais, de Armindo Mendes de Carvalho, ao estilo da nossa estrela Mário Viegas. Mas, antes da Cantiga dos Ais, vão os Ais teatrAIS seguintes: 

              “Pôr-do-Sol”, com Ana Sousa, a refletir sobre os limites entre imaginação, pesadelo e trabalho, através de uma escritora que quer ser feliz com o que faz, mas... Ai! 

              “Carreirismo” ironiza sobre os percursos de vida do ladrão que acaba por ser chefe da polícia. Ernesto Luís escreve duas breves cenas, interpretadas por ele e por Carmen Lois, com a colaboração de Ana Sousa e de Nuria Otero, oferecendo-nos uma perspetiva mais otimista do que a do texto de Leiria, mas... Ai! 

              “Noivado”, com Nuria Otero e Ernesto Luís, coloca-nos face ao amor que, mais do que cego, é míope e remete-nos novamente para a questão da felicidade que nos pode trazer, mas... Ai! 

              “Medicina Tropical”, com Carmen Lois e Ana Sousa, é metáfora grotesca de quê? De que a solução perfeita para as nossas doenças talvez não esteja no consultório médico, mas então onde estará? Será a medicina o que nos traz esta cena? Mas... Ai! 

Ai, Mário Viegas, Ai! é como um gin-tónico teatral inspirado pelo génio e pela figura de Mário Viegas, e interpretado por um pequeno elenco internacional, unido pelo teatro em língua portuguesa: Ana Sousa, aluna Erasmus da Licenciatura em Teatro do Politécnico de Coimbra; Ernesto Luís, aluno Erasmus da Licenciatura em Artes Cénicas da Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique, com o Professor Doutor Félix Bruno Mambucho; Carmen Lois e Nuria Otero, atrizes galegas do Eu.Experimento; e quem isto escreve, Afonso Becerra de Becerreá, a aprender brincando com o teatro, a descobrir, junto com Mário Viegas, que o mundo são as pessoas, que o teatro somos nós. 


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